ENSAIO · PSICANÁLISE, CULTURA E CRÍTICA
Narrativas autoritárias, fascismo e a legibilidade do dano
Há algo profundamente inquietante na maneira como determinadas narrativas autoritárias conquistam adesão social. Não apenas porque fazem circular falsidades, mas porque suas contradições, mesmo quando expostas, nem sempre parecem comprometer a identificação daqueles que as sustentam.
Mais inquietante, entretanto, é observar que certas formas de violência, ainda que amplamente conhecidas, deixam de produzir indignação. São relativizadas, justificadas ou apresentadas como necessárias à proteção de uma ordem supostamente ameaçada.
Isso nos coloca diante de uma pergunta que não pode ser respondida apenas pela desinformação: como uma sociedade chega a tolerar, ou mesmo desejar, formas de violência que deveriam constituir um limite?
UMA PERGUNTA PARA O NOSSO TEMPO
Como uma sociedade chega a tolerar, ou mesmo desejar, formas de violência que deveriam constituir um limite?
Entre a crença e a identificação
É tentador atribuir a adesão às narrativas autoritárias à ignorância ou à manipulação. Mas essa explicação pressupõe que bastaria demonstrar a falsidade de uma afirmação para que a identificação com ela fosse desfeita.
A experiência política mostra que essa relação é muito mais complexa.
Uma narrativa não oferece somente informações sobre o mundo. Ela também pode organizar angústias, produzir pertencimento, oferecer identificações e indicar responsáveis pelos conflitos sociais.
Isso não significa que todos os sujeitos aderem ao autoritarismo pelas mesmas razões. Há interesses materiais, convicções ideológicas, estratégias deliberadas e diferentes formas de investimento subjetivo.
A questão é compreender por que a contradição entre aquilo que uma narrativa promete e aquilo que efetivamente produz nem sempre é suficiente para enfraquecer sua força política.
A contradição, contudo, não necessariamente desfaz uma identificação. Em determinadas circunstâncias, o sujeito pode reconhecer o acontecimento e, ainda assim, reorganizar sua interpretação para preservar a posição com a qual se identifica. Não se trata apenas de recusar os fatos, mas de atribuir-lhes sentidos que permitam sustentar uma crença apesar daquilo que a contradiz. Isso desloca a pergunta: não apenas por que alguém deixa de perceber a violência, mas o que está em jogo para que, mesmo percebendo-a, continue a justificá-la.
Em A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais, Vladimir Safatle propõe deslocar a compreensão do fascismo para as condições históricas que o tornam possível. Em vez de concebê-lo simplesmente como um episódio excepcional ou como uma manifestação de irracionalidade coletiva, o autor investiga sua relação com a organização social, as crises do capitalismo e a transformação dos vínculos entre os sujeitos.
Esse deslocamento é decisivo porque impede que a questão seja reduzida à psicologia individual dos eleitores.
A violência como forma de organização social
Nas páginas iniciais de A ameaça interna, Safatle insiste na necessidade de compreender o fascismo a partir da periferia do capitalismo. É nesses espaços, argumenta, que se tornam particularmente visíveis as relações entre modernização, violência colonial, racionalização social e devastação.
A história do fascismo não poderia, portanto, ser compreendida exclusivamente a partir das experiências europeias.
Ao discutir o Brasil, Safatle chama atenção para as relações estruturais entre violência colonial, violência fascista, guerra racial e práticas de extermínio que atravessam a formação social brasileira.
O argumento é especialmente relevante porque nos obriga a abandonar a ideia de que a violência autoritária surge simplesmente quando uma sociedade abandona seus valores civilizatórios.
Determinadas formas de violência participaram da própria constituição histórica dessas sociedades.
Safatle propõe ainda compreender o fascismo como uma forma específica de violência social, capaz de reorganizar os vínculos coletivos por meio da dessensibilização e da indiferença.
Essa proposição permite formular uma distinção fundamental.
Uma coisa é não perceber que uma violência aconteceu. Outra é percebê-la e não reconhecer sua gravidade. Outra, ainda, é reconhecer sua existência e considerá-la legítima.
Essas posições não são equivalentes.
A agressão pode ser reinterpretada como defesa. A humilhação, como sinceridade. A exclusão, como proteção. A ameaça, como restauração da ordem.
Nessas operações, o acontecimento não precisa desaparecer. O que se transforma é o significado social que lhe é atribuído.
Não é preciso negar que uma violência aconteceu para negar o dano que ela produziu.
A LEGIBILIDADE DO DANO
Não é preciso negar que uma violência aconteceu para negar o dano que ela produziu.
A legibilidade do dano
Essa questão encontra uma interlocução com minha pesquisa de doutorado, Silencio y daño: La legibilidad del daño en el puerperio y la migración, desde un análisis histórico-discursivo.
Nela, investiguei as condições históricas, discursivas e simbólicas que participam das possibilidades de reconhecimento e elaboração de experiências de dano.
A partir da escuta de mulheres no puerpério e em processos migratórios, procurei compreender como determinadas formas de sofrimento não podem ser explicadas exclusivamente a partir de acontecimentos individuais.
As experiências são atravessadas por relações de gênero, raça, classe e por significações sociais que antecedem o sujeito e participam daquilo que ele pode dizer, reconhecer e elaborar.
O silêncio, nesse contexto, não corresponde necessariamente à ausência de palavras.
Ele pode se manifestar na impossibilidade de dizer, na antecipação do julgamento social ou na saturação de discursos que recobrem a experiência com explicações previamente disponíveis.
Mas o silêncio também possui uma dimensão ambivalente. Nem sempre constitui submissão ou impossibilidade. Em determinadas circunstâncias, pode preservar um espaço subjetivo necessário à elaboração.
Essa distinção é essencial para não transformar o silêncio em uma categoria uniforme.
Minha pesquisa não teve como objeto o comportamento eleitoral ou a adesão ao fascismo. Portanto, não seria metodologicamente legítimo apresentar seus resultados como uma explicação direta desses fenômenos.
A aproximação que proponho é outra: investigar como as relações de poder participam da produção dos critérios pelos quais uma experiência passa a ser reconhecida — ou desautorizada — como dano.
Porque uma violência pode ser visível e, ainda assim, permanecer socialmente deslegitimada enquanto experiência de sofrimento e injustiça.
Fanon e a disputa pelos sentidos da experiência
Frantz Fanon oferece uma contribuição indispensável para compreender essa dimensão.
Sua investigação sobre o colonialismo demonstra que a dominação não se exerce apenas por meio da força material. Ela também participa da produção das significações que organizam a percepção dos corpos e das experiências.
Em Sociologia de uma revolução, ao examinar a disputa colonial em torno do véu das mulheres argelinas, Fanon permite observar como o poder procura estabelecer antecipadamente o significado de determinados gestos e formas de existência.
O corpo da mulher colonizada é convertido em signo de uma disputa política que pretende definir, em seu lugar, o sentido de sua própria experiência.
Essa operação não se limita a impedir a palavra. Ela atua sobre as condições de sua interpretação.
A contribuição de Fanon não autoriza equiparar colonialismo e fascismo como se fossem acontecimentos idênticos. Permite, entretanto, investigar historicamente como diferentes regimes de dominação produzem hierarquias de reconhecimento e legitimam formas de violência.
A pergunta sobre o dano exige, portanto, interrogar não apenas quem sofreu uma violência, mas quais discursos e relações de poder participam de sua interpretação social.
Quando a violência já não constitui um limite
O problema das narrativas autoritárias não se reduz à capacidade de fazer alguém acreditar em uma falsidade.
É preciso considerar também sua capacidade de reorganizar os sentidos atribuídos aos acontecimentos e às pessoas.
Quando uma violência é apresentada como necessária à proteção da sociedade, seu reconhecimento deixa de depender apenas daquilo que ocorreu. Passa a ser atravessado pela identificação com quem a praticou, com quem a sofreu e com o projeto político que procura justificá-la.
Isso ajuda a compreender por que um mesmo ato pode produzir indignação em determinadas circunstâncias e ser relativizado em outras.
Não porque toda diferença de julgamento seja necessariamente fascista, mas porque as identificações políticas e as hierarquias sociais podem participar da distribuição desigual da indignação.
É precisamente aqui que a discussão sobre a dessensibilização ganha importância.
A indiferença não precisa ser entendida apenas como uma ausência individual de empatia. Ela também pode ser produzida e sustentada por formas de organização social nas quais a vulnerabilidade de determinados grupos deixa de constituir um problema coletivo.
Esse é um dos aspectos mais inquietantes da violência autoritária: a possibilidade de que ela não apenas seja tolerada, mas passe a integrar aquilo que se espera de uma determinada ordem política.
O que permanece depois das eleições
Uma eleição democrática é fundamental para decidir uma disputa pelo exercício do governo. Mas seu resultado não elimina automaticamente as condições históricas, sociais e subjetivas que tornam determinadas formas de autoritarismo possíveis.
A questão exige, portanto, uma reflexão que ultrapasse a contagem dos votos.
Que relações sociais sustentam a adesão às narrativas autoritárias? Que experiências de insegurança e desamparo essas narrativas procuram organizar? Que violências são justificadas em nome da proteção? E por que determinadas agressões deixam de produzir indignação quando dirigidas àqueles que foram previamente constituídos como ameaça?
Nomear o fascismo exige rigor histórico e político. Não significa classificar qualquer divergência como fascista, nem reduzir os sujeitos a diagnósticos psicológicos.
Significa reconhecer que determinadas formas de violência possuem projetos, práticas e condições sociais específicas, cuja análise não pode ser substituída por explicações moralizantes.
A história da perseguição nazista à psicanálise, com a queima de obras de Freud em 1933 e seu exílio em 1938, recorda que as condições políticas de circulação da palavra e do pensamento não são questões exteriores à nossa prática.
Mas a psicanálise também nos exige reconhecer os limites de nossas explicações.
Não basta afirmar que as pessoas não percebem a violência. Em certas circunstâncias, elas podem percebê-la e, ainda assim, relativizá-la, justificá-la ou desejá-la.
Talvez a pergunta mais difícil não seja por que uma sociedade desconhece a violência, mas como ela aprende a reconhecê-la sob nomes que permitem continuar a reproduzi-la.
Porque o silêncio diante do dano nem sempre se manifesta pela ausência de palavras.
Às vezes, há palavras em abundância.
O que falta não é uma explicação para o acontecimento, mas a possibilidade social de reconhecer aquilo que essa explicação procura tornar aceitável.
Referências e interlocuções
ARAÚJO, Mércia. Silencio y daño: La legibilidad del daño en el puerperio y la migración, desde un análisis histórico-discursivo. Tese de doutorado, Universidad Carlos III de Madrid, 2026.
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas.
FANON, Frantz. Sociologia de uma revolução.
SAFATLE, Vladimir. A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais. São Paulo: Ubu Editora, 2026.
Texto de Mércia Araújo — Psicanalista e doutora em Humanidades pela Universidad Carlos III de Madrid.