
Série “Adolescência” – Ensaio Psicanalítico sobre Nome-do-Pai,
Masculinidade e Violência
A série britânica “Adolescência”, da Netflix, à luz da psicanálise lacaniana e de contribuições da sociologia e filosofia contemporânea. Uma análise possível seria considerar o conceito da função simbólica do Nome-do-Pai — entendida como operador de inscrição na Lei, no desejo e na linguagem — entra em crise na constituição da subjetividade masculina contemporânea. Com base no personagem Jamie, observamos como a ausência de nomeação simbólica dos afetos e do desejo pode resultar em violência, silêncio e identificação com uma autoridade como força e não como lei. Podemos refletir sobre a falha da simbolização do afeto, a posição do afeto, a posição do pai como figura opaca e violenta, e os efeitos disso na constituição da masculinidade.
A ficção torna-se, nesse contexto, mais do que material ilustrativo: ela oferece um campo simbólico onde é possível pensar, elaborar e deslocar os lugares onde o sujeito contemporâneo se encontra preso entre silêncio, violência e a demanda de amor.
O Nome-do-Pai como operador simbólico (e seus deslocamentos contemporâneos)
Segundo Lacan (Seminário 3 – As Psicoses), o Nome-do-Pai é o significante que instaura a Lei simbólica e separa o sujeito da fusão com o desejo da mãe. Nas estruturas neuróticas, ele está presente e recalcado; nas psicóticas, foracluído. No caso de Jamie, o pai está presente como corpo e força, mas não opera simbolicamente. Sua virilidade bruta não transmite Lei, apenas gozo.
O pai não fala, não reconhece subjetividades, não afeta — apenas age e impõe. Como lembra Derrida (1994), toda autoridade que não se autoriza senão a si mesma opera como violência disfarçada de Lei. O Nome-do-Pai, nesse caso, é substituído por um excesso de presença, um real que não é simbolizado.
Subjetivação masculina e falha da mediação simbólica
Jamie com sua subjetividade frágil porque carece de um significante estruturante: não há palavra paterna que diga “tu és”, “isso é um limite”, “isso é um afeto possível”. Como analisa Melman (2002), vivemos uma época em que os semblantes de autoridade ruíram e o sujeito masculino se vê diante de um ideal viril impossível, sem mediações afetivas.
A vergonha, a culpa deslocada e o narcisismo ferido aparecem como marcas dessa subjetivação atravessada por um Nome-do-Pai funcionalmente ausente. A masculinidade, sem simbolização, aparece como um ato, uma performance — não como lugar subjetivo nomeado.
Ato violento como suplência do dizer
Quando não há nomeação simbólica, resta o ato. O crime cometido por Jamie surge como tentativa de inscrição: de se fazer existir no olhar do Outro. Lacan (1955-56) argumenta que, na ausência de um significante que organize o desejo, o sujeito pode ser invadido pelo real e atuar de forma abrupta, como suplência à simbolização falha.
A violência aparece como resposta ao insuportável da angústia: o corpo da vítima vira suporte do ato de dizer algo impossível — um pedido de reconhecimento, um ódio ao desejo, uma revanche contra a vergonha. Essa lógica se alinha ao que Judith Butler (2004) chama de formas precárias de subjetivação, em que a vida só ganha inteligibilidade por meio da repetição de normas ou da ruptura violenta com elas.
Considerações finais – além do Nome-do-Pai: o desafio de nomear o afeto
O Nome-do-Pai é um operador clínico, mas também um índice cultural. Em “Adolescência”, o colapso da função simbólica paterna permite observar o modo como a masculinidade contemporânea enfrenta o desafio de nomear o afeto, o desejo e o limite. O que se vê é uma subjetividade sustentada na performance, no gozo e na desresponsabilização.
Como mostra Jean-Pierre Lebrun (2004), sem uma referência simbólica à altura do desejo, o sujeito é lançado a formas extremas de significação — ou pelo excesso (violência, delírio) ou pela ausência (apatia, retraimento). Jamie representa esse impasse. O Nome-do-Pai está presente como sombra, mas ausente como palavra. A análise da série permite repensar como os sujeitos jovens se organizam na falta de lugares simbólicos consistentes — e como isso exige novas formas de escuta, transmissão e intervenção.
Por fim, a partir da ficção, sobre a constituição da masculinidade em sujeitos marcados por uma função paterna que não opera simbolicamente, mas que comparece como presença violenta, ideal fálico e ausência de afeto nomeável. Essa estrutura narrativa se articula com formas clínicas contemporâneas que escuto na prática psicanalítica, especialmente em homens atravessados por fantasias de impotência simbólica, vergonha do desejo e impossibilidade de reconhecer o Outro como sujeito.
Bibliografia
Lacan, Jacques. Seminário 3: As Psicoses (1955-56).
Lacan, Jacques. Escritos (1957).
Melman, Charles. O Homem sem Gravidade (2002).
Lebrun, Jean-Pierre. Um Mundo sem Limite (2004).
Butler, Judith. Problemas de Gênero (1990).
Derrida, Jacques. Força de Lei: O fundamento místico da autoridade (1994).
Nasio, Juan-David. O Inconsciente em 7 Lições (2002).
Nasio, Juan-David. O Livro da Dor e do Amor (1990).
Žižek, Slavoj. Virtude Indecente (1992).
Bourdieu, Pierre. A Dominação Masculina (1998).
Roudinesco, Élisabeth. Jacques Lacan: Esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento (1993).
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