
A série britânica Adolescência, da Netflix, nos apresenta a história de Jamie, um adolescente de 13 anos acusado de um crime brutal. Mas o que está em jogo ali vai muito além da ação violenta: trata-se da história de um menino que cresce sem espaço para dizer o que sente, sem alguém que o escute, e com um modelo de masculinidade baseado na força, na vergonha e no silêncio.
A figura do pai, presente em cena, não transmite afeto nem escuta. Ele é forte, rígido, explosivo — mas não acolhe, não nomeia, não oferece palavra. Em vez de uma referência que ajude Jamie a se reconhecer como sujeito, o pai aparece como força bruta, como ameaça ou decepção. Quando a autoridade aparece apenas como imposição, e não como escuta ou limite simbólico, o afeto se perde e a violência ocupa esse vazio.
Na psicanálise, chamamos de Nome-do-Pai essa função simbólica que organiza o desejo, os limites e a entrada do sujeito na linguagem. Quando essa função falha, o sujeito não encontra lugar para se reconhecer ou ser reconhecido. E é isso que a série mostra com intensidade: um adolescente tentando se tornar alguém aos olhos dos outros, mas sem palavras para falar do próprio desejo, da dor ou do medo.
Sem acesso ao afeto simbolizado, resta o ato. A violência, nesse contexto, aparece como tentativa de existir no olhar do Outro. Como se o corpo gritasse aquilo que a linguagem não deu conta de dizer.
Esse cenário não é apenas ficção. Na clínica, escuto homens que carregam o mesmo vazio: vergonha do que sentem, dificuldade de nomear o amor, medo da fragilidade. Muitas vezes, esses afetos são calados, deslocados, ou aparecem como controle, irritação, afastamento — ou, em casos mais extremos, como violência.
Essa análise nasceu do encontro entre a ficção e a escuta clínica. Ela propõe pensar como a masculinidade pode se tornar um lugar de sofrimento quando é construída sem afeto, sem palavra, e apenas com o peso de um ideal inatingível.
Convido você a refletir comigo:
o que acontece com um menino que não aprende a falar sobre o que sente?
E como podemos, coletivamente, abrir espaços para nomear o afeto antes que ele se traduza em silêncio, culpa ou destruição?
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