Arte e Psicanálise

Lucian Freud: Nuevas Perspectivas

Conhecido por alguns como o maior artista do século XX. Por muitos motivos, além dos técnicos, fui atravessada pela exposição Nuevas perspectivas, no museu Thyssen-Bornemisza.


Reflection with Two Childre (1965)

O artista 

Lucian, teve vida e obra marcadas por polêmicas. A vida por imensa perda de dinheiro, inúmeras amantes e filhos. A obra por corpos nus, inclusive de suas filhas.

Contudo, através da nudez o artista causou incômodo por outra via, não a óbvia vergonha erótica: com suas pinceladas grossas e precisas foi capaz de captar a alma dos modelos. Talvez nesse ponto a minha transferência tenha se enganchado, pois ao sair do óbvio, há a sensação que estamos diante do interior dos corpos, combinado com um olhar perdido, ou talvez voltado para si, em uma improvável pose de descanso. E ao mesmo tempo possibilitará imprimir a sensação do que se passava ali, naquele repouso selvagem.


Bella y Esther(1987-1988)

Des-conhecidos

Dentre as obras, inegavelmente a Bella y Esther(1987-1988) me chamou a atenção, nela o pintor imprime a postura laxa de suas filhas deitadas em um sofá e o evidente estranhamento que permeava a tríade. As duas tentavam estreitar a relação com o pai e pousavam na busca de conhecê-lo melhor. As duas nitidamente íntimas, pintadas uma em contato com a outra revelava a intimidade mútua, contrário com a postura dos braços e cabeças que expressavam o desconforto da tentativa de aproximação com o pai.Gran Interior (1973)

Interior 

Partindo-se da frase proferida pelo pintor “A incrível capacidade dos Freuds em desvelar as figuras maternas”, a obra nomeada Gran Interior (1973), Freud pinta a mãe, Lucie, sentada em uma poltrona com uma expressão lânguida, um olhar ausente, as mãos agarradas aos braços do sofá como se aquilo assegurasse que ela não suma do mundo. Ao fundo sua amante Jacquetta Eliot deitada em uma cama, cujo formato remete a um divã, em que parece não caber e procura encolher as pernas e cobri-las com uma proposital coberta curta, deixando as mamas desnudas, e ao contrário da mãe, as mãos firmes a seguram em seus próprios braços acima de sua cabeça, porém os olhos revelam que ela sim, talvez já esteja em outro mundo. A cena é fictícia, as duas nunca se encontram, ao menos não fisicamente naquele espaço, mas o simbólico parece forte e perturbador.

Fio-a-fio

El cuarto del pintor (1944)

Termino por ressaltar algo de seu começo, uma das obras que marca sua segunda fase El cuarto del pintor (1944), momento em que Freud flerta com o surrealismo ou mesmo com a metafísica. O artista usa pincéis especificamente finos, pinta fio-a-fio, causando uma equivalência que hipnotiza e atordoa. A cabeça da zebra que atravessa a janela, o conjunto de cores vibrantes ressoam também a bizarra e simbólica possibilidade do estranho mundo que nos habita.

Lucían Freud, neto preferido de Sigmund, se fez a partir dessa família, em outro, distinto sujeito. Foi brilhante e soube transformar a genialidade nas descobertas psicanalíticas do avô em algo seu. Fez uso das artes, linguagem própria, desvelou e expôs o inconsciente.

Por: Mércia Araújo

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