O pai tá off

Neymar é atualmente o representante máximo do futebol brasileiro, goza um status de influencer e vida de celebridade. Como toda marca comercial, tratou logo em criar um logo, um mote: O pai tá on. Como quem diz estou aqui. Mas sabemos que em interpretação literal, o Brasil mostra um cenário oposto ao termo do jogador. Em nosso país: O pai tá off.

 

Bastava ao Ney olhar seus colegas de seleção: seis dos onze titulares na última Copa do Mundo cresceram distantes do pai biológico. Fora das quatro linhas, também levamos goleada, em pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 40% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres. Apenas no ano de 2020, mais de 80 mil crianças foram registradas apenas com o nome da mãe, segundo informações do Registro Civil Nacional, um placar difícil de reverter.

 

Belinda Mandelbaum, professora de psicologia social no Instituto de Psicologia da USP comenta: “a ausência paterna decorre de um vínculo com a criança que, de alguma maneira, não tem força o suficiente para se sobrepor a outros interesses ou necessidades desse pai.” Logo, o pai descumpre sua função em três formas de abandono: intelectual, afetiva e material. Este último um entrave crítico para o desenvolvimento social. Das famílias chefiadas por mulheres, 57% estão abaixo da linha da pobreza. O abandono paterno custa e, caro: somos o oitavo país mais desigual do mundo.

 

No contexto psicanalítico, o papel paterno representa na formação do indivíduo a figura de autoridade. Sigmund Freud apresenta uma reflexão ante esta ausência: «na maioria dos seres humanos, tanto hoje como nos tempos primitivos, a necessidade de se apoiar numa autoridade de qualquer espécie é tão imperativa que seu mundo desmorona se essa autoridade é ameaçada». Desmoronar, verbo conjugado em um eterno gerúndio no Brasil. Que de pátria, foge tanto em etimologia como função. Posto este abandono, porque não adotar o que sugere Caetano em sua canção «Língua»: Eu não tenho pátria, tenho mátria.

 

Desculpe, menino Ney, mas aqui as mães estão on.

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