Pesquisa e publicações
Clínica, cultura e formas de silêncio
Minha trajetória de pesquisa se desenvolve na interface entre psicanálise, clínica social, história, cultura, gênero, raça, maternidade e migração.
Ao longo desse percurso, uma questão retorna sob diferentes formas: como o sofrimento encontra — ou não — condições sociais, simbólicas e clínicas para ser reconhecido, dito e elaborado.
Um percurso de pesquisa
Da clínica social ao problema do silêncio
Minha pesquisa começou interrogando as possibilidades de articulação entre psicanálise e campo social. Essa questão conduziu, posteriormente, ao estudo das relações entre silêncio, poder, memória histórica e dano e, no doutorado, à investigação dos modos como o silêncio atravessa experiências de maternidade e migração.
Clínica social, silêncio, poder, reconhecimento e condições de escuta não aparecem, portanto, como temas separados, mas como diferentes desdobramentos de um mesmo problema.

Pós-graduação
Clínica social e psicanálise
Pós-graduação em Psicosociologia da Juventude — Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.
O trabalho investigou a clínica social de psicanálise no Brasil tomando como referência histórica a Policlínica de Berlim. A pesquisa percorreu a inserção da psicanálise na cultura e sua chegada ao Brasil, examinando experiências como as de Anna Katrin Kemper e do Fórum de Psicanálise de São Paulo.
O eixo central foi a possível articulação entre psicanálise e campo social, em diálogo com a análise do discurso, Michel Foucault e também com Virgínia Bicudo. Sua obra permite pensar como as relações raciais atravessam a vida psíquica e como vergonha, inferiorização, autocensura e conflito identitário não podem ser reduzidos a fenômenos exclusivamente individuais, mas também devem ser lidos em relação com uma ordem social racializada.
Esse trabalho constitui um antecedente importante do compromisso posterior com clínica social, dispositivos coletivos de escuta e acesso à palavra.
Mestrado · 2019
Los silencios de la historia esclavista brasileña: recurso de estrategia de poder o herramienta de resignificación del daño
Máster en Teoría Crítica de la Cultura — Universidad Carlos III de Madrid.
No trabalho de mestrado, investiguei a dimensão ambivalente do silêncio: de um lado, sua utilização como estratégia de poder e apagamento histórico; de outro, sua possível função como espaço para a ressignificação do dano e para a emergência da palavra.
A pesquisa analisou a construção discursiva do mito da homogeneidade cultural e racial brasileira e os mecanismos pelos quais as origens, a historicidade e a experiência das populações negras foram invisibilizadas ou desqualificadas. Esse trabalho constitui um antecedente direto da tese doutoral ao introduzir questões de silêncio, dano, raça, memória, poder e legitimidade da palavra.
Doutorado · 2026
Silencio y daño: la legibilidad del daño en el puerperio y la migración, desde un análisis histórico-discursivo
Doutorado em Humanidades — Universidad Carlos III de Madrid.
Em continuidade com a pesquisa desenvolvida no mestrado, a tese parte de uma concepção ambivalente do silêncio: ele pode operar historicamente como estratégia de poder e silenciamento e, sob determinadas condições, anteceder a palavra e abrir uma possibilidade de simbolização e ressignificação do dano.
O objeto da pesquisa não é a maternidade nem a migração tomadas isoladamente, mas o silêncio que se produz e se reproduz em torno da experiência materna e migratória das mulheres. A hipótese sustenta que momentos de especial vulnerabilidade — como o puerpério e determinados trânsitos migratórios — podem tornar visível e audível um silêncio que não nasce nesses acontecimentos, mas que já se encontra inscrito em histórias anteriores de desautorização, desigualdade e sofrimento.
A pesquisa articula psicanálise, análise do discurso, epistemologia feminista e perspectiva interseccional para compreender como gênero, raça, classe, nacionalidade e condição migratória participam das condições de possibilidade da palavra. Nessa perspectiva, o silêncio não é compreendido prioritariamente como déficit comunicativo individual, mas como efeito de uma cena clínica e social que regula quem pode falar, sobre o quê, a que custo e com que possibilidade de ser reconhecida como sujeito de saber.
O material empírico foi construído em dois dispositivos de escuta: os grupos de apoio materno do Mãe-Estar, no Brasil, e um dispositivo de mediação e escuta com mulheres brasileiras migrantes na Espanha. A análise por vinhetas permitiu aproximar a dimensão clínica das condições históricas e sociais que atravessam cada relato.
Contribuições da tese
Três modalidades de silêncio
Impossibilidade de dizer
Situações em que experiências marcadas por trauma, perda ou desamparo ainda não encontram recursos simbólicos para serem formuladas.
Silêncio imposto
Produzido por normas, expectativas e relações de poder que delimitam aquilo que pode ser dito sem culpa, deslegitimação ou julgamento.
Silêncio cheio de palavras
Há abundância discursiva, explicações e justificativas, mas dificuldade de produzir um dizer em primeira pessoa que implique o sujeito em sua experiência.
Virgínia Bicudo: entre vida psíquica e estrutura social
Virgínia Bicudo ocupa um lugar central no meu percurso de pesquisa, desde os primeiros trabalhos até o doutorado. Sua contribuição é especialmente importante por mostrar que a vida psíquica não pode ser compreendida à margem das estruturas de classe e de raça que organizam a experiência cotidiana.
A partir dessa perspectiva, afetos como vergonha, inferiorização e autocensura deixam de aparecer como simples “traços individuais” e passam a ser lidos também como efeitos de contextos sociais que atribuem lugares desiguais de valor e inteligibilidade a diferentes corpos e histórias. Essa articulação entre processos psíquicos e determinações sociais é decisiva para compreender certos silêncios como efeitos de uma história de desigualdade que se faz ouvir justamente onde a palavra se interrompe.
A tese mostra ainda que o puerpério pode funcionar como um segundo tempo do trauma, reativando experiências anteriores de abandono, violência, racismo, desautorização ou desamparo. Nos trânsitos migratórios, por sua vez, a mulher pode antecipar o custo de falar, ajustar o tom, omitir experiências ou preservar uma imagem de estabilidade para que seu relato seja reconhecido.
O trabalho dialoga com Freud e Lacan e também com autoras e autores que permitem articular subjetividade e estrutura social, entre eles Virgínia Bicudo, Sueli Carneiro, Grada Kilomba, Michel Foucault e Eni Orlandi.
A pergunta se desloca, assim, de “por que uma mulher não fala?” para: que condições históricas, culturais, institucionais e subjetivas permitem ou impedem que aquilo que é dito seja efetivamente reconhecido como palavra?
Publicação · 2026
Letras Lacanianas
Mércia Pereira Araujo. “Subjetividad femenina y políticas del silencio: del daño simbólico a la posibilidad de reparación.” Letras Lacanianas, n.º 30, 2026, pp. 57–62.
O artigo desenvolve questões diretamente ligadas à pesquisa doutoral e à prática clínica, interrogando como determinadas experiências de sofrimento feminino podem permanecer silenciadas não por ausência de palavras, mas pelas condições sociais e simbólicas que delimitam o que encontra reconhecimento.
A partir da psicanálise, o texto investiga as relações entre subjetividade feminina, silêncio, dano e possibilidade de elaboração.
Da pesquisa à escrita
Minha escrita acadêmica e ensaística busca aproximar clínica, cultura e experiência social sem reduzir o sofrimento a uma dimensão exclusivamente individual.