O que é, de fato, saúde mental?

– História, cuidados, riscos e fatores de proteção –

Introdução

Quem nunca se sentiu inadequado alguma vez? A sensação de não estar à altura, de ser insuficiente, de não corresponder a um ideal invisível é quase universal em nosso tempo.

Palavras como falha, erro, insuficiência e vulnerabilidade marcam a experiência cotidiana. E, como se não bastasse, essas se confrontam com a promessa constante de perfeição que aparece nas redes sociais, nas exigências do trabalho e até mesmo nos padrões de eficiência.

Essa inadequação, no entanto, não é apenas uma questão individual: ela tem uma história.

Desde os primórdios da psiquiatria, franceses e alemães disputaram modos de compreender o sofrimento psíquico. Para os franceses, prevalecia a ideia da constituição mórbida e da transmissão familiar da loucura: a doença mental era vista como afloramento de disposições paranoicas, histéricas ou delirantes. Já para os alemães, tratava-se de mostrar que a doença mental era de fato uma entidade clínica, com início definido, curso regular e desfecho previsível, intrusiva à personalidade, mas relativamente independente dela.

No Brasil, essa herança chegou no contexto da República Velha, marcada por projetos higienistas e pela construção de manicômios inspirados em modelos europeus. A saúde mental foi, assim, organizada mais como campo de controle e exclusão do que como espaço de cuidado. Como apontam Dunker e Kyrillos Neto (2021), o peso dessa história atravessa nossos modos de compreender o sofrimento até hoje.

Herdamos, portanto, uma tradição em que o sofrimento foi constantemente associado à falha, ao desvio e ao perigo. Por isso, todos nós, em maior ou menor medida, carregamos a sensação cultural de insuficiência.

A questão que se coloca, então, não é como eliminar as falhas, mas: o que é, de fato, saúde mental?

História da inadequação e o nascimento da saúde mental A saúde mental, desde seus primórdios como campo de saber, foi marcada por uma oposição radical entre normalidade e desvio. Foucault (2005) descreveu como, no século XVII, a loucura foi confinada, criminalizada e excluída, sendo considerada ameaça à ordem social. Mais tarde, o discurso médico do século XIX associou a loucura à degeneração e à hereditariedade, criando uma narrativa em que o sofrimento psíquico era tratado como falha moral ou defeito biológico.

Na virada do século XX, práticas higienistas ganharam força, especialmente em países como o Brasil, onde a institucionalização manicomial se consolidou como modelo dominante (Amarante, 1995). A experiência de Barbacena, em Minas Gerais, tornou-se símbolo máximo desse processo: o hospital Colônia recebeu ao longo do século XX dezenas de milhares de internos em condições de abandono extremo, resultando em mais de 60 mil mortes estimadas¹.

Basaglia (1985)[1], com a reforma psiquiátrica italiana, e Amarante (1995), no contexto brasileiro, abriram caminho para outro entendimento: a saúde mental como campo de direitos, cuidado comunitário e cidadania. Entretanto, a herança histórica da inadequação permanece viva, atravessando nossos modos de vida.

Emoções, afetos e sentimentos: o problema da nomeação.

Antes de falar em saúde mental, é preciso compreender como nos relacionamos com nossas emoções. Em nossa cultura, aprendemos história, matemática ou lógica, mas raramente aprendemos a nomear sentimentos e afetos. O aprendizado é empírico, transmitido pela cultura, pelo gênero e pelas condições sociais às quais cada sujeito tem acesso.

Na psicanálise, distingue-se entre:

  • Emoção: uma descarga corporal imediata, biológica, como o susto, o choro, a aceleração do coração.
  • Afeto: a marca subjetiva dessa descarga, que pode ser deslocada, reprimida ou transformada em sintoma.
  • Sentimento: quando o afeto é nomeado e inscrito na linguagem, ganhando duração e sentido cultural.

Grande parte do sofrimento psíquico surge quando afetos não encontram tradução.

Traumas, perdas, lutos e frustrações que não foram elaborados se transformam em sintomas: a insegurança em ansiedade crônica, o cansaço em burnout, a tristeza em depressão. Assim, o que chamamos de transtorno mental é, muitas vezes, a cristalização de experiências não simbolizadas.

O risco do sujeito universal e a expansão diagnóstica. Um perigo recorrente na história da saúde mental é a ilusão do sujeito universal: normal, produtivo, ajustado. Esse ideal produz práticas higienistas em que o sofrimento é visto como algo a ser eliminado. Porém, nem toda dor deve ser apagada. Há sofrimentos que fazem parte da vida e que, se escutados, podem se transformar em experiências de elaboração.

O diagnóstico, nesse contexto, possui dupla face. Por um lado, oferece pertencimento: “meu sofrimento existe, tem um nome”. Por outro, pode se cristalizar como identidade fixa, impedindo o sujeito de seguir elaborando. Dunker e Kyrillos Neto (2021) lembram que a multiplicação dos diagnósticos no DSM reflete essa ambivalência: o mesmo sofrimento pode ser classificado como ansiedade, depressão leve ou transtorno misto, dependendo do manual e do contexto.

Em 1973[2], a Associação Psiquiátrica Americana substituiu o termo “doença mental”; por “transtorno mental”; e retirou a homossexualidade da lista de patologias². Esse marco evidencia como os manuais diagnósticos não são neutros, mas resultado de disputas políticas, culturais e científicas.

Em 1980, com o DSM-III[3], esse processo ganhou uma dimensão inédita. Estima-se que 70% dos profissionais responsáveis pela elaboração do manual tinham vínculos com a indústria farmacêutica³. Esse dado ajuda a entender a explosão de categorias diagnósticas e a expansão do consumo de psicofármacos. Embora houvesse resistência[4] de psiquiatras sérios, sobretudo ligados à tradição fenomenológica e comunitária, suas vozes perderam força diante da hegemonia biomédica.

Saúde mental na América Latina: comparações regionais. Os dados da América Latina[5] mostram tanto semelhanças quanto diferenças em relação ao cenário global:

  • Brasil (Campinas): cerca de 50% dos usuários da atenção primária apresentam algum sofrimento psíquico; 10% apresentam transtornos moderados e 3% graves. O consumo de psicofármacos é significativo: 8,8% usam ISRS, 7,4% benzodiazepínicos, 7,5% tricíclicos e 1,3% butirofenonas.
  • Colômbia (Bogotá): 26% da população declarou uso atual ou passado de psicofármacos. A prevalência de transtornos mentais foi de 16% em 12 meses e 7,4% em 30 dias.
  • Argentina: dados do OAD/SEDRONAR (2017) apontam uso elevado de tranquilizantes, antidepressivos e hipnóticos. Em planos privados, 11,6% relatam uso de benzodiazepínicos; em hospital de Mendoza, o índice chega a 18,9%. O uso é maior entre mulheres e pessoas com mais de 60 anos.
  • Chile (Santiago): 31,4% da população declarou uso anual de psicofármacos; 42,9% já utilizaram benzodiazepínicos alguma vez e 4,1% apresentam dependência. A pesquisa ENS 2023 indica que 24% da população apresenta algum transtorno mental, com carga superior a 2.000 DALYs[6]/100.000 habitantes.

Esses números revelam um padrão comum: altas taxas de consumo de psicofármacos[7] e prevalências significativas de sofrimento psíquico em toda a região. Contudo, também evidenciam as diferenças nos sistemas de atenção e no modo como cada país responde à crise da saúde mental. No Brasil, por exemplo, a existência de uma rede pública de atenção psicossocial (CAPS/RAPS) oferece uma base comunitária, enquanto em países como Chile e Argentina observa-se uma forte medicalização, com menor cobertura em saúde mental comunitária[8].

Saúde mental hoje: entre controle e cuidado Segundo Dunker e Kyrillos Neto (2021), saúde mental não é ausência de doença nem perfeição, mas a capacidade de habitar as falhas sem ficar aprisionado nelas. É um campo em disputa: entre medicalização e escuta, entre controle e cuidado.

Cuidar da saúde mental significa:

  • – Cuidar dos vínculos: com a família, consigo mesmo, com os sonhos e prazeres.
  • – Reconhecer vulnerabilidades: antes que se transformem em sintomas.
  • – Falar e escutar: compartilhar com outros, dividir a carga da vulnerabilidade.
  • – Regular o uso das redes sociais: em especial, limitar o hábito de consumir vídeos curtos.
  • – Cultivar a subjetividade: dedicar tempo a atividades que alimentem identidade, criatividade e desejo.

Pesquisas recentes confirmam o impacto das redes sociais e dos vídeos curtos. Chiossi et al. (2023) demonstraram que o consumo intensivo prejudica a memória prospectiva, reduzindo a capacidade de lembrar intenções futuras. Cheng et al. (2024) mostraram que, mesmo gerando emoções negativas como ansiedade e frustração, essas plataformas reforçam o ciclo de dependência. Figueiredo (2024), em revisão sistemática, conclui que o uso excessivo afeta atenção, memória, humor e bem-estar subjetivo.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (2025), estima-se que 332 milhões de pessoas no mundo vivam com depressão (cerca de 4% da população), 359 milhões com transtornos de ansiedade (4,4%), e que em 2021 ocorreram 727 mil suicídios registrados globalmente. O burnout foi incluído no CID-11 como fenômeno ocupacional⁶.

Como pedir e oferecer ajuda e reconhecer que se precisa de ajuda é um gesto de coragem. Alguns sinais de alerta incluem: sofrimento persistente, impacto na vida cotidiana, isolamento, sintomas físicos recorrentes e sensação de desesperança.

Do lado de quem oferece apoio, o mais importante é escutar sem julgamento, legitimar o sofrimento do outro e encaminhar a canais seguros: CAPS e RAPS no Brasil, o CVV (188), profissionais de saúde mental e redes comunitárias. Pedir ajuda não é fraqueza, mas responsabilidade consigo mesmo.

Conclusão

A crise da saúde mental não se resume ao aumento de diagnósticos: é uma crise dos nossos modos de vida. A aceleração, a lógica da produtividade, as redes sociais e a medicalização em excesso transformam o sofrimento em falha.

Mas o sofrimento não é fracasso: é condição humana. A saída está em criar espaços de escuta, dar palavra ao sofrimento e transformá-lo em laço social e produção de sentido.

Como lembra Dunker, saúde mental não é perfeição, mas a capacidade de viver com as próprias falhas e elaborar o que nos acontece.

Notas

  1. Barbacena Daniela Arbex, em Holocausto Brasileiro (2013), documenta como o Hospital Colônia de Barbacena funcionou como verdadeiro campo de extermínio, com cerca de 60 mil mortes, revelando a face mais violenta do modelo manicomial no Brasil.
  2. 1973 Nesse ano, a American Psychiatric Association retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais e substituiu o termo “doença mental” por “transtorno mental”, marcando um divisor de águas na história da psiquiatria.
  3. DSM-III e indústria farmacêutica Cosgrove et al. (2006) identificaram que 56% dos autores do DSM-IV tinham vínculos com a indústria farmacêutica; relatos semelhantes indicam que cerca de 70% dos especialistas do DSM-III também possuíam tais relações. Allan Frances (2013), coordenador do DSM-IV, denunciou publicamente a explosão diagnóstica e a criação de mercados artificiais para novos psicofármacos. Dunker (2021) retoma essa crítica para mostrar como a saúde mental se tornou um campo em disputa entre medicalização e escuta.
  4. Resistência psiquiátrica Embora o DSM-III tenha se consolidado como hegemônico, houve resistência de psiquiatras clínicos e fenomenológicos que denunciaram a perda da escuta e o risco de reduzir o sofrimento a rótulos. Suas críticas, no entanto, foram derrotadas pela correlação de forças, e o modelo biomédico expandiu-se globalmente.
  5. Dados farmacológicos na América Latina Os levantamentos regionais mostram prevalência elevada de uso de psicofármacos: no Brasil (Campinas), 8,8% dos usuários de atenção primária utilizam ISRS, 7,4% benzodiazepínicos e 7,5% tricíclicos; na Argentina, o consumo de benzodiazepínicos chega a 18,9% em hospital de Mendoza; no Chile, 42,9% da população já fez uso de benzodiazepínicos em algum momento, com 4,1% em situação de dependência.
  6. Dados globais da OMS Segundo a Organização Mundial da Saúde (2025), estima-se que 332 milhões de pessoas no mundo vivam com depressão (cerca de 4% da população), 359 milhões com transtornos de ansiedade (4,4%), e que em 2021 ocorreram 727 mil suicídios registrados globalmente. O burnout foi incluído no CID-11 como fenômeno ocupacional.
  7. Fármacos citados Os ISRS (Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina) são antidepressivos de primeira linha, amplamente usados no tratamento da depressão e ansiedade. Os benzodiazepínicos são ansiolíticos e sedativos indicados para insônia e crises de ansiedade, mas apresentam alto risco de dependência. Os tricíclicos são antidepressivos mais antigos, ainda usados em alguns casos resistentes. As butirofenonas (como o haloperidol) são antipsicóticos típicos, indicados em psicoses agudas, mas associados a efeitos colaterais neurológicos significativos.
  8. DALY (Disability-Adjusted Life Year) O DALY (Ano de Vida Ajustado por Incapacidade) é um indicador criado pela OMS para medir a carga global de doenças. Ele combina anos de vida perdidos por morte prematura com anos vividos com incapacidade. No caso citado (2.000 DALYs/100.000 habitantes), significa que a cada 100.000 pessoas, a perda de saúde mental equivale a 2.000 anos de vida saudável comprometidos por incapacidade ou morte precoce.

Referências

Amarante, P. (1995). Loucos pela vida: A trajetória da reforma psiquiátrica no Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz.

Arbex, D. (2013). Holocausto Brasileiro: Vida, genocídio e 60 mil mortes no maior hospício do Brasil. São Paulo: Geração Editorial.

Basaglia, F. (1985). A instituição negada. Rio de Janeiro: Graal.

Cosgrove, L., Krimsky, S., Vijayaraghavan, M., & Schneider, L. (2006). Financial ties between DSM-IV panel members and the pharmaceutical industry. Psychotherapy and Psychosomatics, 75(3), 154–160.

Dunker, C. I. L., & Kyrillos Neto, F. (2021). Psicanálise e saúde mental (2ª ed.). São Paulo: Zagodoni.

Frances, A. (2013). Saving Normal: An Insider’s Revolt against Out-of-Control Psychiatric Diagnosis, DSM-5, Big Pharma, and the Medicalization of Ordinary Life. New York: William Morrow.

Foucault, M. (2005). História da loucura. São Paulo: Perspectiva.

Organização Mundial da Saúde (OMS). (2025). World Mental Health Report 2025. Genebra: WHO.

OAD/SEDRONAR (2017). Encuesta Nacional sobre Consumo de Sustancias Psicoactivas. Buenos Aires: Presidencia de la Nación. ENS (2023). Encuesta Nacional de Salud. Santiago do Chile: Ministerio de Salud.


[1] Daniela Arbex, em Holocausto Brasileiro (2013), documenta como o Hospital Colônia de Barbacena funcionou como verdadeiro campo de extermínio, com cerca de 60 mil mortes, revelando a face mais violenta do modelo manicomial no Brasil. 

[2] Nesse ano, a American Psychiatric Association retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais e substituiu o termo “doença mental” por “transtorno mental”, marcando um divisor de águas na história da psiquiatria.

[3] Cosgrove et al. (2006) identificaram que 56% dos autores do DSM-IV tinham vínculos com a indústria farmacêutica; relatos semelhantes indicam que cerca de 70% dos especialistas do DSM-III também possuíam tais relações. Allan Frances (2013), coordenador do DSM-IV, denunciou publicamente a explosão diagnóstica e a criação de mercados artificiais para novos psicofármacos. Dunker (2021) retoma essa crítica para mostrar como a saúde mental se tornou um campo em disputa entre medicalização e escuta.

[4] Embora o DSM-III tenha se consolidado como hegemônico, houve resistência de psiquiatras clínicos e fenomenológicos que denunciaram a perda da escuta e o risco de reduzir o sofrimento a rótulos. Suas críticas, no entanto, foram derrotadas pela correlação de forças, e o modelo biomédico expandiu-se globalmente.

[5] Os levantamentos regionais mostram prevalência elevada de uso de psicofármacos: no Brasil (Campinas), 8,8% dos usuários de atenção primária utilizam ISRS, 7,4% benzodiazepínicos e 7,5% tricíclicos; na Argentina, o consumo de benzodiazepínicos chega a 18,9% em hospital de Mendoza; no Chile, 42,9% da população já fez uso de benzodiazepínicos em algum momento, com 4,1% em situação de dependência.

[6] O DALY (Ano de Vida Ajustado por Incapacidade) é um indicador criado pela OMS para medir a carga global de doenças. Ele combina anos de vida perdidos por morte prematura com anos vividos com incapacidade. No caso citado (2.000 DALYs/100.000 habitantes), significa que a cada 100.000 pessoas, a perda de saúde mental equivale a 2.000 anos de vida saudável comprometidos por incapacidade ou morte precoce.

[7] Os ISRS (Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina) são antidepressivos de primeira linha, amplamente usados no tratamento da depressão e ansiedade. Os benzodiazepínicos são ansiolíticos e sedativos indicados para insônia e crises de ansiedade, mas apresentam alto risco de dependência. Os tricíclicos são antidepressivos mais antigos, ainda usados em alguns casos resistentes. As butirofenonas (como o haloperidol) são antipsicóticos típicos, indicados em psicoses agudas, mas associados a efeitos colaterais neurológicos significativos.

[8] Segundo a Organização Mundial da Saúde (2025), estima-se que 332 milhões de pessoas no mundo vivam com depressão (cerca de 4% da população), 359 milhões com transtornos de ansiedade (4,4%), e que em 2021 ocorreram 727 mil suicídios registrados globalmente. O burnout foi incluído no CID-11 como fenômeno ocupacional.

¿Es este tu nuevo sitio? Accede para activar las funciones de administrador y cerrar este mensaje
Iniciar sesión