Silêncio, saúde emocional e os desafios atuais
No dia 10 de setembro, celebra-se o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio. Mais do que uma
data, é um convite para refletirmos sobre a vida, o sofrimento e as formas de cuidado
possíveis. Falar sobre suicídio ainda é um tabu — mas silenciar não protege. Pelo contrário,
quando o silêncio é imposto ou vivido como isolamento, pode se transformar em risco.
Na clínica psicanalítica, aprendemos que o silêncio não é vazio: ele pode ser tanto sinal de
dor quanto espaço para que a palavra surja. Nesse contexto, refletir sobre o suicídio é
também refletir sobre como escutamos, acolhemos e reconhecemos a singularidade do
sofrimento humano.
Um panorama atualizado: dados recentes na Espanha
De acordo com o Instituto Nacional de Estatística da Espanha (INE, 2023), o país registrou
3.952 suicídios, sendo 2.952 homens e 1.000 mulheres. Esse número representou uma
redução de 6,5% em relação a 2022, a primeira queda significativa em anos. No primeiro
semestre de 2024, a tendência se manteve: houve 1.842 mortes por suicídio, cerca de 6,3%
a menos do que no mesmo período de 2023 (Sur in English, 2024).
Entre os jovens, a situação é particularmente alarmante. Um estudo publicado na revista
Public Health in Spain (MDPI, 2023) mostrou que, entre 15 e 29 anos, foram registradas 354
mortes por suicídio, número que já supera os acidentes de trânsito como principal causa
não natural de morte nessa faixa etária.
Classe social e desigualdade: fatores invisíveis
Embora nem sempre apareça de forma explícita nas estatísticas, os fatores socioeconômicos
desempenham um papel crucial no risco de suicídio. Segundo a Lancet Psychiatry
Commission (2024), jovens enfrentam hoje um cenário marcado por desigualdade
intergeracional, precariedade no trabalho, insegurança econômica e crise climática,
elementos que impactam diretamente a saúde mental.
Essas condições tornam a vida mais vulnerável e, em alguns casos, a morte mais
interessante do que a continuidade de um sofrimento sem perspectivas de mudança. Falar
de prevenção, portanto, é também falar de justiça social e da necessidade de políticas que
reduzam desigualdades.
Redes sociais e gênero: quando a dor encontra o algoritmo
O impacto das redes sociais sobre a saúde mental não é homogêneo: as meninas e jovens
mulheres aparecem de forma mais vulnerável.
Um levantamento do Pew Research Center (2025) mostra que 34% das adolescentes
relatam sentir-se pior com suas vidas por causa das redes sociais, contra 20% dos meninos.
Mais meninas relatam se sentir excluídas ou pressionadas a postar conteúdos populares.
Paradoxalmente, elas também identificam benefícios: 57% sentem apoio nas plataformas e
68% dizem que as redes permitem expressar criatividade.
Já a pesquisa do CDC (Youth Risk Behavior Survey, 2024) revelou que o uso frequente de
redes está associado a maior risco de suicídio e sentimentos de tristeza persistente, sendo
meninas e jovens LGBQ+ os grupos mais atingidos.
Um estudo austríaco com mais de 8 mil adolescentes (Klinger et al., 2024) reforça que o
gênero é um fator moderador importante: jovens diversos em termos de identidade de
gênero apresentaram maior risco de sintomas depressivos quando expostos intensamente
às redes.
Além disso, investigações recentes sobre os algoritmos revelam um cenário preocupante:
- Um estudo publicado pelo The Guardian (novembro de 2024) mostrou que o Instagram
não removeu conteúdos de automutilação postados em rede privada e, na prática, facilitou a
criação de comunidades de autolesão. - Outra pesquisa, da University College London e Universidade de Kent (fevereiro de 2024),
constatou que o TikTok quadruplicou a exposição a conteúdos misóginos em apenas cinco
dias de uso.
Esses dados apontam para uma questão central: as redes não apenas refletem, mas também
intensificam desigualdades de gênero e vulnerabilidades emocionais, criando espaços onde
o sofrimento pode se amplificar. Para a psicanálise, esse contexto nos desafia a pensar não
só a dimensão individual do sofrimento, mas também a maneira como estruturas sociais e
tecnológicas moldam a subjetividade.
O silêncio: risco e possibilidade
O silêncio pode ser um grito não ouvido. Quando a dor não encontra espaço de
reconhecimento, a pessoa se vê forçada a calar — e, às vezes, a única forma de falar é
através do ato suicida.
Por outro lado, o silêncio pode ser um espaço de pausa e de cuidado. Na psicanálise, o
silêncio do terapeuta abre lugar para que o paciente encontre suas próprias palavras, no seu
tempo. Assim, prevenir não significa interromper o silêncio a qualquer custo, mas
transformá-lo em espaço de escuta e acolhimento, onde o sofrimento pode ser nomeado
sem julgamento.
Saúde emocional e a clínica psicanalítica
A prevenção do suicídio não é apenas tarefa de médicos ou instituições, mas envolve toda a
sociedade. Na clínica psicanalítica, aprendemos que:
- Prevenir é legitimar a dor do outro, sem apressar respostas.
- O cuidado se faz no ‘ganhar tempo’, acompanhando a ambivalência entre viver e morrer.
- A escuta é sempre horizontal: o terapeuta não é quem salva, mas quem caminha ao lado.
Principais mitos sobre o suicídio
| Tópico | Mito | Realidade |
|---|---|---|
| Comunicação do risco | Mito: quem quer se matar não avisa. | Realidade: a maioria manifesta sinais — palavras, gestos, ameaças ou mudanças de comportamento — antes da tentativa. |
| Mito: quem fala não faz. | ||
| Intenção do ato | Mito: quem tenta só quer chamar atenção. | Realidade: há sempre ambivalência entre viver e morrer. O gesto expressa sofrimento e falha dos mecanismos de adaptação, não simples desejo de “morrer a qualquer custo”. |
| Mito: o suicida deseja apenas morrer. | ||
| Perfil da pessoa em risco | Mito: todo suicida é deprimido ou doente mental. | Realidade: o suicídio é multifatorial e pode acontecer em qualquer faixa etária, classe social ou condição. A depressão e outros transtornos aumentam o risco, mas não explicam todos os casos. |
| Mito: suicídio é hereditário. | ||
| Mito: só pobres, ricos, idosos ou crianças cometem suicídio. | ||
| Prevenção | Mito: o suicídio é sempre impulsivo, não pode ser prevenido. | |
| Mito: falar sobre suicídio incentiva. | ||
| Mito: só especialistas podem ajudar. | ||
| Mito: a mídia não pode contribuir. | ||
| Julgamento moral | Mito: quem tenta suicídio é covarde. | Realidade: reduzir o suicídio a traços de personalidade é incorreto e prejudicial. Trata-se de sofrimento humano, não de coragem ou covardia. |
| Mito: quem tenta suicídio é corajoso. |
Conclusão: um convite à vida
O Dia Mundial da Prevenção do Suicídio nos lembra de algo essencial: prevenir não é apenas evitar a morte, é abrir espaço para a vida. É reconhecer que o sofrimento existe, mas não precisa ser vivido sozinho.
Na psicanálise, o silêncio pode ser tanto sinal de perigo quanto possibilidade de reconstrução. Quando há espaço para escuta, a dor pode se transformar em palavra, e a palavra em novos caminhos de existência.
Prevenir suicídios é, antes de tudo, um ato de humanidade: oferecer presença, acolhimento e dignidade.
Recursos de apoio
- Espanha: Línea 024 – Atención a la conducta suicida (24h, gratuita e confidencial)
- Brasil: CVV – Centro de Valorização da Vida (188, ligação gratuita, 24h)
- Em caso de emergência, procure imediatamente um serviço de saúde.
Referências
- Molina-López, R. A., et al. (2025). Emergency calls related to suicide in the Valencian Community: 2014–2023 trends by gender and age. Scientific Reports, 15, 12345. Nature Publishing Group. https://www.nature.com/articles/s41598-025-07700-4
- Mihailidis, P., & Trifonas, P. P. (2024). Social Media Use and Suicide Attempts among Adolescents: A Global Review. In Handbook of Digital Youth Cultures (pp. 301–320). Springer. https://link.springer.com/chapter/10.1007/978-3-031-69362-5_20
- Social Media Victims Law Center. (2023). Suicide and social media: Understanding the risks. https://socialmediavictims.org/mental-health/suicide/
- Ramírez-Cifuentes, D., Freire, A., & Cuesta, H. (2022). Detection of suicidal ideation on Twitter: Feasibility study in Spanish language. JMIR Public Health and Surveillance, 8(5), e31800. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9157318/
- The Trevor Project. (2024). National Survey on LGBTQ Youth Mental Health 2024. The Trevor Project. https://www.thetrevorproject.org/survey-2024/
- Hern, A. (2025, August 19). Social media still pushing suicide-related content to teens despite new UK safety laws. The Guardian. https://www.theguardian.com/technology/2025/aug/19/social-media-still-pushing-suicide-related-content-to-teens-despite-new-uk-safety-laws
