A menina, a mulher, o corpo interditado

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Em seu livro tempos sombrios Hannah Arendt escreveu a seguinte frase:

“…de todas as liberdades especificas que podem ocorrer em nossas mentes quando ouvimos a palavra liberdade, a liberdade de movimento é historicamente a mais antiga e a mais elementar. Sermos capazes de partir para onde quisermos é o sinal do prototípico de que somos livres.1”

Pois bem, sabemos que em nossa sociedade ocidental nem todos os corpos usufruíram historicamente desse direito, o que causa espanto, ou pelo menos deveria causar espante e horror é o retorno contínuo de um passado que segundo a própria autora deveria servir para usá-lo como construção de algo novo, ou seja, se deveria aprender com os erros para revelar uma visão nova para o futuro.

Desde o ponto de vista do controle social Foucault ele constrói uma teoria que mostra como a disciplina dos corpos garante o funcionamento social, segundo ele:

“a modelagem dos corpos atribui caracteres de docilidade, tornando o corpo útil e produtivo ao aumentar sua submissão e obediência. Seria, portanto, uma política de coerções, uma ideologia calculada no detalhe que tem como finalidade o controle e modelagem de atitudes, gestos e comportamentos.2”

Dentro desse molde social pelo qual as mulheres estiveram e ainda estão submetidas não apenas garante a manutenção como também garante essa trama que o mundo moderno opera.

É papel da disciplina organizar grandes multidões em multiplicidades organizadas, construir “quadros vivos”. Arrumar, observar, controlar, regularizar, inspecionar e constatar, cada um performar seu papel e que esse papel seja sempre muito próximo e padronizado faz fácil o trabalho de manter uma sociedade dócil e em funcionamento.

Tudo que envolve o corpo da mulher, historicamente pertence a essa docilidade, e que esteve pautada em palavras como: instinto, natureza, alma, pecado, dever, maternidade, cuidado e vulnerabilidade. Essas palavras carregam uma carga simbólica de subalternidade, porém por se tratar de significantes ditos e escritos em nossa cultura de maneira sistêmica e organizada, parece pertencer naturalmente automaticamente ao corpo nomeado como feminino a partir do nascimento. Como se elas diretamente fossem sendo coladas ao corpo e, para voltar em Foucault fossem moldando a formação daquela mulher, cuidadosamente fechada dentro do controle social.

O corpo feminino tem uma função clara de interdito social, é o símbolo do que pode ser cerceado com suas posições e funções formuladas na natureza do ser “a ordem não tem que ser explicada, nem mesmo formulada; é necessário e suficiente que provoque o comportamento desejado” dado essa clara função é perceptível o quanto o que deveria ser privado e mantido por uma individualidade é tratado pelo âmbito público. O medo de que a partir do movimento e liberdade desse corpo a base rache e derrube todo o resto que foi construído nessa construção arranca os direitos violente e traumatiza por muitas vezes mais para que a vergonha seja o vetor principal para manter os privilégios dentro de seus muros.

Nos últimos dias, tivemos infelizes episódios, de uma menina e uma mulher acometidas pelo mesmo crime de estupro, e que não puderam decidir sobre si, a mensagem de todos os acontecimentos de ambos os casos – cada com suas especificidades, entoa a mesma mensagem: o corpo feminino não é livre, e não será livre, o direito de se movimentar a revelia do crime não está disponível e garantido e, muito menos a privacidade pois não está no ambito do privado. A exposição simboliza que a decição é pública, ou seja, ela arrancada o direito e violenta inúmeras vezes mais. Mais além do trauma do crime, não mais em praças aguardando acender fogueiras, mas sim em telas, seja elas grandes ou pequenas formam tribunais de interdito que ecoam a disciplina que for-mata o corpo.

[1]ARENDT, Hannah. Homens em tempos sombrios

[2]FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: o nascimento da prisão

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